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5653 - Os cadernos do Promotor como fonte para o estudo do cotidiano no Brasil colonial

Num texto inspirador sobre o método de Giovanni Morelli, o historiador italiano Carlo Ginzburg auxilia o pesquisador que trabalha com as fontes inquisitoriais, chamando a atenção para os resíduos e os considerados dados marginais , muitas vezes pouco estudados, mas de uma riqueza ímpar. Pudemos perceber isso ao nos debruçarmos sobre um tipo de documento trabalhado até agora de forma bastante esporádica, nunca sistemática. Falamos dos cadernos do Promotor , uma fonte extremamente rica, mas que tem aparecido aleatoriamente nas pesquisas sobre a Inquisição portuguesa. Não é à toa que Carlo Ginzburg abre seu texto com uma citação de Aby Warburg: “Deus está no particular” ( GINZBURG, Carlo. “Sinais: raízes de um paradigma indiciário”. In : Mitos, emblemas e sinais . São Paulo: Companhia das Letras, 1989, pp. 143-179. ). Esse “Deus”, para nós, está na particularidade das centenas de denúncias que foram registradas nos setenta e três cadernos do Promotor que cobrem todo o século XVII, referentes apenas à Inquisição de Lisboa. Talvez João Lúcio de Azevedo tenha sintetizado a importância de se debruçar sobre os documentos inquisitoriais, tanto para a história portuguesa quanto para a brasileira, ao afirmar que “verdadeiramente se não poderá escrever uma história, digna desse nome, da época posterior ao estabelecimento da Inquisição, sem miudamente compulsar tão copioso arquivo” ( AZEVEDO , João Lúcio de. “Os processos da Inquisição como documentos da história”. In : Separata do Boletim da Classe de Letras . Coimbra: Imprensa da Universidade, vol. XIII, 1921, p. 5. ). Acrescentaríamos a estas sábias palavras apenas a observação de que este estudo não pode prescindir das centenas de fólios que foram preenchidas pelas mais extraordinárias denúncias, vindas de todos os cantos do império português. Auxilia-nos, em grande parte, a entender um pouco melhor a própria sociedade, tanto a ibérica quanto a colonial, além de permitir compreender inclusive o desenvolvimento do Santo Ofício, bem como suas contradições. Proporciona-nos, acima de tudo, desfazer mitos.  

Palabras claves: Inquisição de Lisboa, século XVII, cadernos do Promotor

Autores: Silva, Marco Antônio Nunes da (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Brazil / Brasilien)

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