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6220 - Medicina, filantropia e Estado: a assistência à maternidade no Brasil republicano.

O objetivo desta comunicação é propor uma reflexão sobre as múltiplas interfaces e os diferentes agentes da assistência social à maternidade e à infância no Brasil republicano. As primeiras décadas do século XX foram marcadas por tensões entre um modelo liberal de ordenamento econômico e jurídico e a configuração autoritária e centralizadora da ordem política e social. Deste embate ideológico que até hoje tem seus reflexos na sociedade brasileira a chamada questão social começou então a demandar ações que requeriam uma presença mais eficaz do jovem Estado republicano e de outros agentes sociais como os médicos e indivíduos envolvidos com organizações de caridade e de filantropia, entre os quais se sobressaíram as mulheres das classes mais privilegiadas. Neste contexto a atenção às necessidades das mães pobres e seus filhos envolveu e aproximou médicos, mulheres ligadas à caridade e os interesses políticos de gestão da população, especialmente após a década de 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. Nossa reflexão parte do entendimento de que proteger, amparar, socorrer, nutrir, guiar, auxiliar, são todas expressões de um léxico originalmente significante do domínio privado/doméstico, lugar dos impotentes, das atividades de reprodução da vida e das emoções. Nesse sentido defendemos que o uso da categoria gênero permite compreender como se dá o deslizamento dos cuidados para o mundo da política; como todas aquelas palavras tão marcadas pela operação epistemológica da dicotomia entre público/privado, masculino/feminino, razão/emoção, passam a fazer parte do léxico e da prática políticos. Nossa discussão visa esclarecer de que maneira médicos, mulheres e o Estado organizaram políticas sociais e para tanto uma abordagem de gênero se faz necessária a fim de entender de que maneira definiram estratégias de enfrentamento da questão social sentimentalizando-a a partir da noção de cuidado, de assistência e de benevolência, politizando, portanto, vocabulário e práticas até então de domínio feminino e privado.

Palavras-chaves: assistência; gênero; política; maternidade

Autores: Vosne Martins, Ana Paula (Universidade Federal do Paraná, Brazil / Brasilien)

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