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5826 - Cinema, memória e impunidade no Brasil: representações da luta armada nos filmes 'O que é isso, companheiro?' e 'Hércules 56'.

O melodrama histórico “O que é isso, companheiro?” (Bruno Barreto, 1997) e o documentário “Hércules 56” (Silvio Da-Rin, 2006) adotam gêneros cinematográficos distintos para representar uma das mais significativas ações da luta armada revolucionária contra a Ditadura Militar no Brasil (1964-1985): o sequestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick, promovido por grupos guerrilheiros em 1969. Produzidos após as eleições presidenciais diretas de 1989, os filmes têm o testemunho como matriz de suas imagens, e a diferença de gêneros já sugere, em si, uma disputa em torno da fidedignidade da memória que possui nexos com as conjunturas em que foram realizados – a “Era FHC” (1994-2002) e a “Era Lula” (2003-2010), períodos em que Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva exerceram duplos mandatos presidenciais.

Adaptação do relato pessoal homônimo escrito no exílio por Fernando Gabeira e publicado em 1979, o filme “O que é isso, companheiro?” mobiliza o modo melodramático hollywoodiano na construção de uma versão da memória que justifica e anistia a violência de Estado perpetrada contra oposicionistas. Em resposta, o documentário “Hércules 56” reúne os protagonistas do sequestro e os presos políticos libertos em troca do diplomata numa edição de entrevistas que fragmenta divergências em prol da construção da unidade da resistência em torno do télos democrático.

Embora realizados em contextos distintos e situados em campos estéticos e políticos inegavelmente conflitantes, os filmes propõem sentidos estáveis em que a democracia institucional inaugurada em 1989 coloca-se como ponto final do passado. O embate entre as representações do melodrama cinematográfico revisionista e do documentário monumentalizante da resistência fica circunscrito a uma espécie de círculo de memórias unívocas no qual a história recente de violência política no Brasil está encerrada. A divergência das memórias no cinema não supera a coerência conciliadora que mantém intocada a realidade histórica da impunidade dos torturadores.

Palabras claves: cinema, memória, guerrilha, tortura, Brasil

Autores: Seliprandy, Fernando (Universidade de São Paulo (USP), Brazil / Brasilien)

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