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12082 - Diferença cultural e pesquisa no cotidiano escolar

A expansão da escola pública brasileira de ensino fundamental traz para o debate os processos de escolarização das classes populares. Os atuais resultados escolares, incluindo o que se define como êxito ou fracasso, mostram-se articulados às novas formas de produção e manutenção das relações de colonialidade, relacionadas à hegemonia, inclusive epistemológica.

A ampliação do acesso à escola tem-se feito acompanhar de resultados insuficientes, evidenciando fraturas do projeto vigente, em sua busca para regular a distribuição dos fragmentos do conhecimento, gerando alguma redução das desigualdades sem desarticular processos de subalternização (subjetiva e coletiva). A impossibilidade de se universalizar o sucesso escolar e a circunscrição sócio-cultural do fracasso oferecem elementos para a interpelação das relações entre o projeto hegemônico de escola e a produção de discursos e dispositivos que tornem aceitável a manutenção da desigualdade e da subalternidade, negando a alteridade. O estudo dos resultados escolares demanda reflexão sobre a epistemologia que constitui o projeto de escolarização, sendo indispensável evidenciar o debate silenciado em seu cotidiano entre a epistemologia que demarca o seu centro e as epistemologias que ocupam suas margens. A diferença cultural, tecida por ambivalência, traz a parcialidade, a fragmentação, provoca tensão e rupturas no discurso bem articulado enquanto cria espaço para a irrupção do híbrido, com seus excessos e deslizamentos, nos entre-lugares fluidos que não se prestam à fixidez das

categorias que tradicionalmente demarcam as possibilidades de percurso dos estudantes.

As classes populares trazem para a escola a evidência da diferença cultural. A leitura pós-colonial da dinâmica social de produção, validação e distribuição do conhecimento oferece uma perspectiva interessante para a investigação das práticas pedagógicas e de avaliação que, sob a promessa, mais ou menos explícita, de emancipação e de igualdade, amplificam e confirmam a dinâmica de subalternização, sobretudo, dos sujeitos das classes populares.

O não reconhecimento de seus saberes e processos de produção de conhecimento como parte da dinâmica de produção da vida requer estudos que ultrapassem a denúncia da insuficiência do projeto de escolarização e tragam neste enquadramento político, epistemológico e pedagógico, possibilidades de diálogo com as práticas escolares cotidianas que explicitem movimentos de transformação em que se rearticulem outros sentidos do processo de avaliação, como processo que valida as aprendizagens, os conhecimentos e a própria escolarização.

A diferença cultural expõe a escola como espaço conflituoso, mesmo quando seu discurso fortalece sua tradição iluminista, que vincula conhecimento à razão, à verdade e à harmonia. Especialmente quando tratamos da escola pública, constituída pelas classes populares, é preciso investigar como as palavras crise e caos atravessam seu cotidiano, transbordando potencialidades.

Keywords: diferença cultural; cotidiano escolar; epistemologia; avaliação; classes populares

Author: Esteban, Maria Teresa (Universidade Federal Fluminense, Brazil / Brasilien)

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