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3357 - Brasil: um país místico e supersticioso?

Nascida na França na metade do século XIX, a Doutrina Espírita, ou Espiritismo, ou também conhecida no Brasil como Kardecismo ou Mesa Branca, foi fundada por Allan Kardec, pseudônimo do pedagogo francês Hippolyte Léon Denizad Rivail. Desde seu início, essa doutrina de caráter espiritualista nunca foi especificamente tratada como uma religião. Sua proposta era a de entender o mundo e suas relações com o “além” de forma inusitada, já que se definia como sendo ao mesmo tempo uma ciência, uma filosofia e uma religião. No entanto, o que se vê hoje no Brasil – notar bem: hoje – é um Espiritismo reconhecido como religião, e uma religião assiduamente praticada por aproximadamente dois milhões e meio de pessoas, isso sem contar os chamados “simpatizantes”, que giram em torno de 10% da população. É no Brasil, portanto, onde vive o seu maior número de adeptos, país sobre o qual incidem análises mais comuns que afirmam (ou reafirmam) o caráter predominantemente religioso e místico de seu povo. Isto talvez pelo fato de ele abrigar credos diversos, provenientes do sincretismo entre os cultos africanos, indígenas e do catolicismo popular bastante permissivo por aqui, além do franco crescimento de novas denominações protestantes, evangélicas e (neo)pentecostais. Assevera-se com frequência que o Brasil em termos de crenças e superstições é bastante fértil. Qualquer doutrina que nele penetre, floresce e dá frutos; como se aqui, em se plantando, tudo desse. Mas será mesmo que certa doutrina pode revigorar nestas terras pelo simples fato de o país apresentar um caráter “místico e supersticioso”? Como poderíamos compreender então, segundo tal perspectiva, o papel desempenhado por personagens-chaves em conjunturas histórico-sociais específicas? Pretende-se aqui discutir algumas das características da conformação do Espiritismo no Brasil, ressaltando certas especificidades da recepção de uma doutrina originalmente francesa transmutada pelos seus primeiros adeptos brasileiros. Segundo os processos e impactos da transnacionalização do Espiritismo, as ações de determinados agentes sociais, longe de promoverem uma deturpação dos princípios originários, responderam a imperativos históricos, sociais e culturais específicos.

Keywords: Transnacionalização; Espiritismo; Brasil Republicano

Author: Arribas, Célia (Universidade de São Paulo, Brazil / Brasilien)

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