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8006 - Objetificação e subjetivação no universo ameríndio: o caso da miçanga

A situacao pos-colonial pode ser caracterizada como um momento em que as categorias analiticas, fabricadas no centro e exportadas para o resto do mundo, retornam para assombrar aqueles que as produziram (Carneiro da Cunha (2009: 312). Uma dessas categorias é a cultura que se torna cultura entre aspas, revelando o processo atraves do qual os indigenas passam a objetivar para o mundo exterior aspectos do seu fazer ate entao considerados subjetivos , proprios, tecnicas invisiveis da producao de seres humanos ‘verdadeiros’, como diriam os Kaxinawa. O que era fundo torna-se figura, o que era visto ate entao como dado, evidente, passa a ser visto como tendo que ser produzido, inventado (Wagner, 1975). De repente, para existir é preciso para os indigenas tornarem-se visiveis para o mundo, atraves da indumentaria e da producao de artefatos. Neste processo dialogico é preciso transformar-se para continuar existindo. O tema da micanga (conta de vidro) surge neste contexto como entrada privilegiada para se pensar as idas e vindas de categorias, objetos e materias primas entre o centro e as ex-colonias. No caso da miçanga ocorre um movimento inverso ao que ocorre com a apropriacao indigena da categoria cultura. Se no último caso algo proprio e subjetivado é objetificado enquanto propriedade cultural, no primeiro uma substancia obtida do exterior e subjetificado enquanto enfeite corporal, considerado veiculo da forca vital do exterior. Temos assim um movimento em espiral no qual a miçanga, que desde sua origem foi moeda de troca nas viagens ultramarinas, simbolizando a desigualdade da troca de quinquilharias por materias primas preciosas, é reincorporado e resignificado enquanto item de valor, primeiro no universo indigena e depois pelo proprio mercado de arte etnica no centro. Atraves da miçanga os indigenas mostram ao Ocidente uam noçao diferente de identidade que so existe atraves da icorporaçao do (poder agentivo do) outro.

Palavras-chaves: objetos, agencia, subjetivação, amerindio

Autores: Lagrou, Els (UFRJ, Brazil / Brasilien)

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