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8919 - As comidas do meu neto. Patrimônio e alimentação em tempos de mudanças sociais

Na decorrência dos processos de sedentarização e de globalização, muitas sociedades indígenas procuram mudar os seus modelos alimentícios, integrando novas práticas e novos alimentos oriundos da cidade e do mundo dos “brancos”. Nesse processo, as crianças podem ser as primeiras em experimentar -e apreciar- comidas e bebidas exógenas, finalmente impostas aos adultos ou ate mesmo patrimonializadas. No caso dos Kayapó da Amazônia brasileira, o desenvolvimento adequado da criança é condicionado por praticas de cuidado especifico, e em especial a observância de prescrições e restrições alimentícias que se aplicam também a mãe, o pai e os parentes. Por exemplo, a qualidade do leite depende da qualidade do que ira comer a mãe e, portanto, dos cuidados do pai, caçador e coletor de mel, e da avó materna, agricultora. Os primeiros alimentos ingeridos além do leite materno provem de variedades especificas de plantas cultivadas (batata doce, banana, inhame) que são previamente mascados pela mãe ( myja kamja ), como acontece também na criação de animais de estimação. A doença de um filho, mesmo adulto e mesmo geograficamente distante, implica a observância estrita de uma dieta ‘familiar’ posto que um alimento inadequado pode alterar a saúde, não só de quem come, mas também de parentes. A tradição reconhece um rol crucial a comida (ingredientes, modos de preparo –cozido ou assado- e modo de oferecer- kamja ou receber) para a saúde, e para a construção da pessoa social especificamente com o bebê que “já senta e ainda não caminha”. Mas ao mesmo tempo, as crianças Kayapó dispõem de uma grande liberdade comendo o que elas querem na hora que elas querem... adoecendo e preocupando os adultos :“elas já não gostam mais de batata doce, só querem arroz”. Tentaremos avaliar como as preferências alimentícias das crianças, sempre satisfeitas quando é possível, prefiguram mudanças no patrimônio alimentício e nas concepções da saúde e da doença.

Palavras-chaves: crianças mebêngôkre-kayapo, Amazonia, mudanças alimentícias, saúde, corpo

Autores: de Robert, Pascale (Institut de Recherche pour le Développement, Brazil / Brasilien)

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